José Ricardo impõe estratégia e vence queda de braço no PT Amazonas

A candidatura do vereador de Manaus José Ricardo Wendling (PT) à Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), homologada na convenção do PT, no último sábado (1º de agosto), tornou-se mais do que uma definição eleitoral.

Embora o desfecho só ocorrerá no dia 15 de agosto, quando termina o prazo da Justiça Eleitoral para o registro de candidaturas às eleições deste ano, a candidatura de José Ricardo acabou se transformando na maior demonstração de força política interna do Partido dos Trabalhadores no Amazonas.

Depois de decidir abandonar a disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados para concorrer novamente ao parlamento estadual, José Ricardo enfrentou resistência dentro do próprio partido e viu surgir a possibilidade de ficar fora das eleições de 2026 e, ao final, conseguiu que a direção estadual recuasse e referendasse sua estratégia.

A Executiva Estadual e o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) aprovaram, no dia 29 de julho, sua pré-candidatura à Assembleia Legislativa praticamente por consenso, restando apenas uma abstenção.

A decisão foi posteriormente ratificada no processo de definição da Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB), encerrando o impasse que mobilizou a legenda durante toda a semana.

Cálculo eleitoral

A mudança surpreendeu porque José Ricardo vinha sendo preparado pelo PT nacional para disputar uma vaga de deputado federal. O próprio parlamentar havia anunciado anteriormente esse projeto, mas mudou de posição depois de avaliar o cenário eleitoral.

Embora nunca tenha afirmado publicamente que o motivo foi o quociente eleitoral, pessoas próximas ao processo reconhecem que a matemática da eleição pesou na decisão.

Pelas projeções para 2026, o Amazonas deverá ter aproximadamente 2,8 milhões de eleitores.

E, considerando o comparecimento médio das últimas eleições, o quociente eleitoral para deputado federal poderá ficar próximo de 260 mil votos, enquanto para deputado estadual deverá girar em torno de 90 mil votos.

Na prática, uma federação precisará reunir quase três vezes mais votos para conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados do que para eleger um deputado estadual.

Para um partido que perdeu sua candidatura própria ao Senado após a retirada de Marcelo Ramos, atendendo a um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pressão do senador Eduardo Braga (MDB-AM), passou a priorizar a unidade da base aliada. Então, a disputa federal se tornou ainda mais complexa.

Resistência interna

Nos bastidores, havia também outro componente político. O presidente estadual do PT, Sinésio Campos, também é pré-candidato à Assembleia Legislativa.

A entrada de José Ricardo na mesma disputa altera o equilíbrio interno da chapa proporcional, já que ambos figuram entre os nomes mais conhecidos da legenda no estado.

Mesmo assim, o partido acabou acolhendo a decisão do vereador.

Vitória política

O desfecho da negociação acabou representando uma vitória política para José Ricardo.

Em vez de recuar para preservar o planejamento original da direção estadual, foi o partido que reorganizou sua estratégia eleitoral.

Além de aprovar sua candidatura à ALE-AM, o PT indicou Denis Silva para ocupar a vaga deixada por José Ricardo na chapa de deputado federal, redesenhando toda a composição proporcional.

Após receber o aval da legenda, José Ricardo procurou transmitir uma imagem de unidade.

“Recebo essa aprovação com muita gratidão e um grande senso de responsabilidade. Essa confiança do PT fortalece ainda mais nosso compromisso de seguir ao lado do povo do Amazonas”, afirmou.

Peso eleitoral

O episódio também mostra o capital político acumulado por José Ricardo ao longo de mais de duas décadas de vida pública.

Ele foi vereador de Manaus por dois mandatos, deputado estadual por duas legislaturas e deputado federal entre 2019 e 2023, eleito com 197.270 votos, a maior votação de sua trajetória.

Esse histórico ajudou a dar sustentação à sua decisão de contrariar o planejamento inicial do partido.

Poucos dirigentes possuem densidade eleitoral suficiente para alterar uma estratégia definida pela direção estadual e ainda obter a concordância da própria legenda.

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